Hierápolis — antiga cidade sagrada sobre as travertinas de Pamukkale
A antiga Hierápolis é um dos monumentos arqueológicos mais surpreendentes da Turquia, situada no topo das famosas travertinas brancas de Pamukkale, na província de Denizli. Esta cidade, cujo nome traduzido do grego significa «cidade sagrada», foi simultaneamente um centro de cura, um importante ponto de passagem das rotas comerciais e um local de culto a várias divindades. Em 1988, Hierápolis, juntamente com os terraços naturais de Pamukkale, foi incluída na Lista do Património Mundial da UNESCO como um local misto de natureza cultural e natural — um dos únicos dois na Turquia. Hoje, milhões de viajantes visitam este local anualmente para passear pelas ruínas da cidade antiga, banhar-se nas águas termais da «Piscina de Cleópatra» entre colunas antigas submersas e ver uma das maiores necrópoles do mundo antigo.
História e origem de Hierápolis
Hierápolis foi fundada no final do século II a.C., presumivelmente por Eumenes II — rei de Pérgamo, que reconheceu o potencial estratégico e económico do local, com as suas fontes termais, terras férteis e ricos recursos minerais. As próprias águas termais eram veneradas muito antes da fundação da cidade — os habitantes locais, os frígios, adoravam a «Grande Mãe» Cibele e acreditavam que os vapores que subiam das fendas subterrâneas eram o sopro do deus subterrâneo. Foi precisamente esta característica da paisagem que determinou o estatuto sagrado da cidade.
Em 133 a.C., após o testamento de Attalus III, Hierápolis, juntamente com todo o reino de Pérgamo, passou para o domínio da República Romana. O período romano tornou-se uma época de apogeu: o imperador Nero, após o devastador terramoto de 60 d.C., destinou fundos para a reconstrução da cidade, e nos séculos II–III, sob os Antoninos e os Severos, Hierápolis atingiu o auge da riqueza e da população (até 100 000 pessoas). A cidade tornou-se conhecida como centro de turismo terapêutico — doentes de todo o Mediterrâneo vinham até aqui para tomar banhos termais e rezar aos deuses. Foi também aqui, segundo a tradição cristã, que, no ano 80 d.C., o apóstolo Filipe foi crucificado e martirizado.
Na época bizantina, Hierápolis tornou-se um importante centro eclesiástico e residência do metropolita. O terramoto de 1354 destruiu grande parte dos edifícios, e a cidade foi definitivamente abandonada. As escavações atuais são realizadas desde 1957 por uma missão arqueológica italiana, que conseguiu restaurar muitos monumentos e transformar Hierápolis num dos parques arqueológicos mais visitados do país.
Arquitetura e o que ver em Hierápolis
A zona arqueológica estende-se por mais de 3 km ao longo do planalto, pelo que é necessário reservar meio dia para uma visita completa. O mais conveniente é começar pela entrada norte, junto ao necrópolo.
Teatro romano
A principal joia arquitetónica é o teatro romano dos séculos II-III d.C., um dos mais bem preservados da Turquia. Tinha capacidade para cerca de 12 000 espectadores e o seu palco (scena) está decorado com relevos em mármore com imagens de Dionísio, Apolo e Artemis. Após uma restauração em grande escala em 2013, o teatro recuperou a sua aparência antiga e é por vezes utilizado para concertos.
Piscina de Cleópatra e banhos termais
Uma atração única é a Piscina de Cleópatra, ou Piscina Antiga, onde os visitantes podem banhar-se nas águas termais curativas (+36 °C) entre colunas romanas submersas e capitéis que caíram durante os terramotos. Segundo a lenda, esta piscina foi oferecida a Cleópatra por Marco António. A entrada é paga, mas a experiência de nadar entre artefactos arqueológicos é verdadeiramente única.
Martírio do apóstolo Filipe e complexo de templos
Na parte oriental da cidade, numa colina, erguem-se as ruínas de um martírio octogonal, construído no século V sobre o suposto túmulo do apóstolo Filipe. Perto dali, em 2011, foi descoberto o próprio túmulo do apóstolo — uma das descobertas arqueológicas mais sensacionais do século XXI. Nas proximidades, conservam-se vestígios do templo de Apolo e o famoso Plutónio — a entrada para a «caverna de Plutão», de onde emanam gases vulcânicos venenosos. Os sacerdotes antigos demonstravam um «milagre», levando animais para dentro da caverna, que caíam mortos instantaneamente, enquanto os sacerdotes castrados de Cibele eram imunes ao gás graças a uma respiração especial.
Necrópole do Norte
Uma das maiores necrópoles antigas da Ásia Menor conta com mais de 1200 túmulos, criptas e sarcófagos dos períodos helenístico, romano e paleocristão. Aqui estão sepultados peregrinos e doentes de todo o mundo antigo e, pela diversidade de tipos de sepulturas, este local é uma verdadeira enciclopédia das tradições funerárias da Antiguidade.
Museu Arqueológico de Hierápolis
O museu está situado num edifício de banhos antigos do século II d.C. e guarda uma coleção de esculturas, sarcófagos e relevos provenientes da própria Hierápolis e de Afrodisias — é particularmente conveniente combinar a visita a ambos.
Rua Frontina e portões da cidade
O eixo principal da cidade antiga é a Rua Frontina, batizada em homenagem ao procônsul romano Sexto Júlio Frontina, que financiou a sua pavimentação no final do século I d.C. A rua estendia-se de norte a sul por quase 1200 metros e era adornada com pórticos, bancos e pequenos santuários. Aos seus lados, conservam-se latrinas — casas de banho públicas com 24 lugares, assentos de mármore e água corrente, consideradas das mais bem preservadas da Ásia Menor. Na extremidade norte da rua encontram-se os portões de três arcadas de Domiciano (Frontina), construídos entre os anos 84 e 86 d.C. — a entrada principal da cidade, por onde passavam peregrinos e mercadores de todo o Mediterrâneo.
Basílica e catedral bizantinas
A Hierápolis cristã deixou uma marca tão significativa quanto a pagã. As ruínas da monumental basílica de cinco naves do século V d.C. estão localizadas na parte central da cidade e, apesar da destruição, impressionam pelas suas dimensões. Nas proximidades, conservam-se as fundações da catedral do século VI, construída no local de um antigo templo de Apolo. Nas naves laterais, os arqueólogos encontraram fragmentos de uma barreira de mármore do altar com símbolos cristãos — cruzes, peixes e videiras. Foi precisamente nestas basílicas que, nos séculos V a VII, se reuniram os concílios eclesiásticos regionais, num dos quais foram discutidas questões relacionadas com o monofisismo.
Frontão com a Gorgona e programa escultórico
No teatro romano de Hierápolis, merece especial atenção a decoração escultórica da cena: as cenas do nascimento de Apolo em Delos, da batalha das amazonas, do triunfo de Dionísio e da procissão em honra da deusa Artemis de Éfeso. O lugar central é ocupado pelo frontão com a Górgona Medusa — um dos relevos mais expressivos da escultura da Ásia Menor do final do século II d.C. Muitos fragmentos originais encontram-se hoje no Museu Arqueológico de Hierápolis, e nos seus locais foram instaladas cópias exatas.
Factos e lendas interessantes
- Os travertinos de Pamukkale formaram-se ao longo de centenas de milhares de anos graças à precipitação de carbonato de cálcio proveniente das águas termais. As terraços imaculados crescem cerca de 1 mm por ano, e a sua extensão total é de cerca de 2,7 km.
- Em 2013, arqueólogos italianos anunciaram a descoberta do Plutónio — «as portas do inferno». As medições revelaram uma elevada concentração de dióxido de carbono na entrada, o que confirmou cientificamente os testemunhos antigos sobre «vapor mortífero».
- O túmulo do apóstolo Filipe foi encontrado não no interior do martírio, mas num edifício-templo vizinho, o que se tornou uma sensação na arqueologia cristã.
- Hierápolis foi uma das primeiras cidades balneares da história da humanidade — conservam-se listas de nobres romanos que vinham aqui especificamente para tratar a gota, o reumatismo e doenças de pele.
- Após o terramoto de 1354, Hierápolis foi abandonada, mas os agricultores locais continuaram a utilizar os travertinos para a criação de carpas em lagos naturais, o que contribuiu, em parte, para a preservação dos terraços.
- A missão arqueológica italiana liderada por Paolo Verzoni, que começou a trabalhar aqui em 1957, utilizou o método da anastilose — o recolocação de colunas e blocos caídos nos seus locais originais —, inovador para a época. Este método tornou-se mais tarde o padrão para as escavações de Sagalassos e Afrodisias.
- Segundo a lenda, os peregrinos que vinham a Hierápolis em busca de cura deixavam nas fontes sagradas placas de bronze com pedidos aos deuses. Os arqueólogos encontraram centenas delas — em grego, latim e, por vezes, em aramaico e copta, o que confirma o estatuto internacional do balneário na Antiguidade.
Hierápolis na literatura antiga
Muitos autores antigos escreveram sobre as propriedades curativas das águas de Hierápolis. Estrabão, na «Geografia» (XIII, 4), descreve detalhadamente o Plutónio e os seus vapores venenosos; Plínio, o Velho, na «História Natural», menciona o travertino local como material ideal para a confeção de estátuas; Vitrúvio elogia as soluções de engenharia dos sistemas de abastecimento de água da cidade. Na Antiguidade tardia, Hierápolis foi celebrada pelo poeta cristão Gregório, o Teólogo, que ali se tratou de gota. A cidade é mencionada até mesmo nos «Atos de Paulo e Tecla» — um texto apócrifo que narra a história dos primeiros pregadores cristãos na Ásia Menor.
Como chegar a Hierápolis
Hierápolis e Pamukkale situam-se a 20 km da cidade de Denizli. A forma mais fácil de chegar é de autocarro a partir de Denizli: partem dolmuşes da estação rodoviária a cada 20–30 minutos, com uma duração de viagem de cerca de 40 minutos. Denizli está ligada por autocarros diretos a Izmir (4 horas), Antalya (4 horas), Istambul (10 horas) e à Capadócia (cerca de 9 horas). Existe também o pequeno aeroporto de Denizli Çardak, com voos diários a partir de Istambul.
Hierápolis-Pamukkale tem duas entradas: a norte e a sul. A entrada norte é conveniente para quem deseja começar a visita pela necrópole e descer pelas travertinas; a entrada sul é ideal para um acesso rápido à Piscina de Cleópatra e ao teatro. Muitos turistas vêm numa excursão de um dia a partir dos resorts costeiros (Marmaris, Bodrum, Antália), mas um dia só dá para uma visita superficial. O ideal é passar a noite na vila de Pamukkale para ver as travertinas ao amanhecer, quando não há multidões.
Dicas para o viajante
A melhor época para visitar é a primavera (abril–maio) e o outono (setembro–outubro). No verão, as piscinas de travertinos com a sua água quente são agradáveis, mas as ruínas ficam escaldantes ao sol. No inverno, as temperaturas matinais são baixas, mas a paisagem é particularmente impressionante. Planeie pelo menos 5 a 6 horas: 2 horas para passear pelas travertinas, 2 horas para a zona arqueológica, uma hora para a Piscina de Cleópatra e uma hora para o museu.
Regras importantes: só é permitido entrar nas travertinas descalço, para não danificar os frágeis terraços de calcário. Leve consigo uma toalha, roupa para trocar, chinelos de praia para se trocar e fato de banho, se pretender dar um mergulho na piscina. Pode levar o calçado nas mãos ou deixá-lo nos cacifos. Recomenda-se levar água e um lanche — dentro do complexo há um café, mas os preços são elevados.
Os fotógrafos devem chegar ao pôr do sol: na «hora dourada», as terraços brancas adquirem um tom rosa pálido e dourado, e a vista para o vale do Licos a partir do topo do planalto é uma das mais impressionantes da Turquia. A visita a Hierápolis e Pamukkale é frequentemente combinada com Afrodisias — estes dois locais classificados pela UNESCO ficam relativamente próximos e combinam-se naturalmente num único itinerário, revelando diferentes facetas da civilização antiga da Ásia Menor.
Os melhores pontos fotográficos em Hierápolis não são apenas as travertinas, mas também a vista da vale a partir dos assentos superiores do teatro, o palco do teatro banhado pelos raios quentes do sol poente, o Arco de Domiciano com o necrópolo ao fundo e, claro, a Piscina de Cleópatra vista de cima, onde as colunas antigas são visíveis nas águas turquesa cristalinas. Para fotografar o interior das melhores pinturas e estátuas do museu, ative a alta sensibilidade à luz na sua câmara — a iluminação lá é fraca. Ao planear o percurso dentro do complexo, vale a pena ter em conta o relevo: da entrada norte até à sul são cerca de 3 km com desnível; a maioria dos visitantes percorre-o a pé, mas, se desejar, pode utilizar um veículo elétrico que funciona como shuttle entre as entradas.
Em termos gastronómicos, Pamukkale não é um deserto turístico, como pode parecer. Na aldeia vizinha de Karaağaç, existem pequenos restaurantes familiares onde se servem pratos típicos da província de Denizli: o «tandyr kebab» de carne de borrego assada em forno de barro, o famoso «Denizli tavuğu» — frango assado com acompanhamento de arroz e ervas locais — e a sobremesa de figo com nozes, preparada há séculos nesta região. É precisamente aqui que o viajante descobre que o sudoeste da Turquia não é apenas ruínas, mas também uma tradição gastronómica viva, com raízes na Antiguidade. Após um dia inteiro na poeira e sob o sol, um jantar simples numa taberna rural torna-se parte da experiência de visitar Hierápolis e Pamukkale, que ficará na memória tanto quanto os terraços brancos como a neve.
Por fim, para os amantes do invulgar, vale a pena visitar um recanto pouco conhecido do complexo — o Martírio de Filipe, com a sua estrutura octogonal. Os arqueólogos acreditam que, no século V, havia peregrinações em massa em torno deste local, e os peregrinos deixavam oferendas votivas nas nichos das paredes. Essas nichos preservaram-se até hoje e, graças ao silêncio e ao isolamento do local, é possível sentir bem a atmosfera do Oriente cristão primitivo.